​Os Gugu’s de “Feito Pipa” e “Elefante”: um paralelo entre cinema e literatura sobre infâncias brasileiras



Filme cotado para o Oscar 2027 e novo livro de Josué Souza trazem protagonistas com o mesmo nome, revelando diferentes formas de falar sobre memória, afeto, pertencimento, violência, racismo e proteção das crianças

* por Josué Souza 

Não raramente, tanto a literatura quanto o cinema encontram caminhos curiosos para falar de coisas que parecem grandes demais para uma criança compreender. Foi assim que percebi uma coincidência que me chamou a atenção: Elefante, meu livro, e Feito Pipa, filme dirigido por Allan Deberton, têm como protagonistas meninos negros chamados “Gugu”. A coincidência está no nome, mas talvez ela também abra uma conversa possível sobre infância, afeto, pertencimento, ausência e sobre aquilo que fazemos quando uma criança precisa enfrentar situações grandes demais para a sua idade, como o racismo. 
 
Em Feito Pipa, Gugu é um menino que vive com a avó Dilma, no sertão cearense. Apaixonado por futebol e dança, ele foi criado por ela de maneira livre e afetuosa. Quando a saúde da avó se fragiliza, surge a possibilidade de que ele precise deixar aquela vida e morar com o pai, Batista, interpretado pelo ator Lázaro Ramos. O filme acompanha esse menino diante da ameaça de perder o cotidiano, os vínculos e o lugar que reconhece como casa. Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, o longa de Allan Deberton constrói sua história a partir de relações familiares, sob o olhar da infância. 

Em Elefante, Gugu tem sete anos. Ele também vive uma infância atravessada pelo afeto familiar, mas encontra em POC, seu elefantinho imaginário, uma companhia para a realidade de uma infância superprotegida, mas que não é suficiente para impedir a violência urbana que ocorre em seu entorno. A história do livro se desenvolve entre o mundo concreto e uma floresta onde fantasia e realidade se encontram, permitindo que a imaginação se transforme em uma forma de elaborar aquilo que nem sempre pode ser compreendido pela razão: a infância interrompida para uma família que vai ter de lidar com essa dor. 

São histórias diferentes, e talvez seja justamente essa diferença que me interessa. Porque infância não é uma experiência única. Há crianças que enfrentam a possibilidade de perder a casa onde cresceram. Outras precisam lidar com a doença de alguém que amam. Algumas convivem cedo demais com a separação, o abandono, a violência ou a ausência. E existem aquelas que encontram na imaginação uma maneira de continuar habitando o mundo quando a realidade se torna difícil demais. 

Por isso, ao perceber que os dois protagonistas se chamam “Gugu”, pensei menos na coincidência e mais naquilo que ela pode representar. Enquanto Feito Pipa acompanha um Gugu diante da possibilidade de deixar a vida que conhece, Elefante acompanha outro Gugu, que passa a habitar as memórias de seus dois pais, Guilherme e Joshua. Em uma história, o vínculo entre avó e neto ocupa o centro da narrativa. Na outra, a amizade entre um menino e seu elefantinho abre caminho para falar de memória, saudade, esperança e da infância que foi interrompida pela violência. 

Existe algo muito importante nessas duas narrativas: a infância não aparece apenas como uma etapa da vida, mas como um território construído por vínculos. Gugu não é somente uma criança diante dos acontecimentos. Ele sente, deseja, imagina, resiste, ama e tenta compreender o mundo à sua volta. E talvez seja justamente quando olhamos para uma criança dessa maneira que percebemos o quanto ainda precisamos aprender a escutá-la. 

O reconhecimento de Feito Pipa também chama a atenção para a importância de histórias que colocam a infância no centro. O filme estreou mundialmente no Festival de Berlim, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus. No Festival de Gramado, conquistou quatro Kikitos e uma menção honrosa para Yuri Gomes, por sua interpretação do personagem Gugu. Agora, representa o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. A escolha, porém, ainda não significa uma indicação ao prêmio. Os filmes indicados serão anunciados em janeiro de 2027. 

Mas, para além dos prêmios, existe algo que me interessa ainda mais: uma criança está no centro da narrativa. E talvez precisemos olhar mais para histórias em que crianças não aparecem apenas como personagens secundários, mas como sujeitos de desejos, medos, sonhos, conflitos e imaginação. Gugu dança. Gugu joga futebol. Gugu imagina. Gugu ama. Gugu sente medo. O meu Gugu também. E talvez essa seja a coincidência que realmente importa. Não somente o nome do menino, mas a possibilidade de lembrar que uma criança deveria ter o direito de simplesmente ser criança. Sonhar, imaginar e brincar deveriam ser parte de toda infância. E crescer, sem medo do futuro, um direito garantido a todos. 

No fundo, Feito Pipa e Elefante talvez façam perguntas diferentes sobre a mesma questão: o que fazemos efetivamente para proteger as infâncias, sobretudo as infâncias de crianças negras? O cinema encontra suas imagens. A literatura encontra suas palavras. E talvez ambos possam fazer aquilo que a arte tantas vezes tenta fazer: olhar para uma criança e dizer que sua história importa, mesmo quando o mundo parece não saber ver ou escutá-la. 

Ficha técnica: 
Título: Elefante  
Autor: Josué Souza 
Editora: Patuá 
Edição/ano: 1ª/2026 
ISBN: 978-65-281-0452-9 
Páginas: 136 
Gênero: Literatura infantil/Literatura infantojuvenil 
Preço: R$60,00  
Onde encontrarEditora Patuá e Amazon  


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