‘Neste Quarto’ é dirigido por Ana Rocha de Sousa e acompanha a fadista em turnê pelo Japão, registrando o encontro de culturas unidas pela música
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Duas culturas separadas por histórias, valores e idiomas diferentes encontram na música um território comum. Esse encontro é o fio condutor de Neste Quarto, documentário dirigido pela cineasta Ana Rocha de Sousa, que acompanha Carminho em turnê pelo Japão durante as apresentações do álbum “Portuguesa”. Pelas salas de concerto de diversas cidades, como Tóquio e Hiroshima, a cantora levou o fado a plateias que não compreendiam as palavras do idioma cantado, mas respondiam à música com emoção, aplausos e, muitas vezes, lágrimas.
O filme estreia mundialmente no dia 17 de outubro, no Brasil, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A exibição será às 20h10, no Solar Sala Petrobras, no antigo Museu da Casa Brasileira, um dos principais espaços da mostra. E contará com a presença de Carminho e da diretora Ana Rocha de Sousa.
Neste Quarto concorre na categoria Perspectiva Internacional e também disputa o Prêmio do Público. “Este é um filme sobre a simplicidade de uma mulher de sucesso em um mundo em vias de desmoronar, onde poesia, empatia e a música nos recordam como é urgente entendermo-nos uns aos outros”, explica Ana.
Para a diretora, a experiência japonesa revelou uma dimensão da música que vai além da compreensão racional. “Vi salas inteiras a aplaudir de pé num Japão que não fala uma palavra da nossa língua, do nosso português. O filme aborda precisamente essa diferença entre compreender e sentir”, destaca.
Reconhecida como uma das maiores artistas portuguesas e referência do fado, Carminho surge nas telas longe do formato biográfico mais comum. A cantora também foi convidada a captar imagens em Hi8, que passaram a coexistir com o registro realizado por Ana Rocha de Sousa.
“Nesta turnê pelo Japão, pude uma vez mais testemunhar o poder do entendimento de uma língua onde não existem constrangimentos e barreiras. A música é uma ligadura do mundo. Une, aproxima, entende e faz crescer algo que é um verdadeiro tesouro: a empatia”, diz a fadista. “Foram dias em que o olhar terno e sensível da Ana nos mostrou muito do que está presente em uma turnê e que tantas vezes não vemos. Ela viu”, complementa.
A reação do público japonês confirma o que a artista percebe no palco. Os fãs se emocionam mesmo sem compreender o idioma das canções. Para Carminho, é justamente nesse ponto que a música ultrapassa as fronteiras da linguagem. “No início, pensávamos que não havia pontes. Mas depois que comecei o concerto, encontramos as nossas pontes. E é lindo”, afirma Carminho no filme. “A música muda as pessoas na medida em que as suas vidas se encontram com a música”.
É esse encontro que Ana Rocha de Sousa procura registrar. Filmado entre concertos, bastidores, quartos de hotel, táxis, silêncios e sussurros, Neste Quarto acompanha Carminho em um registro próximo e contemplativo. A câmera observa tanto a artista no palco quanto os momentos em que ela se relaciona com os fãs e experimenta a rotina simples dos dias em um país culturalmente distante, mas do qual se aproxima fascinada.
A combinação entre as duas linguagens — cinematográfica e espontânea, de caráter quase doméstico — é parte essencial da construção do filme.
“Andamos ao longo do filme sempre entre uma linguagem muito cinematográfica estruturada e uma linguagem humana espontânea, de vídeo habitualmente familiar de memória”, explica Ana.
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Produzido pela portuguesa Alecrim Vagabundo, Neste Quarto procura captar, “um lugar transcendental onde a voz de Carminho contagia mesmo quem não entende o significado exato da palavra cantada ou dita”. O fado, assim, deixa de ser apenas uma expressão musical portuguesa para se tornar uma experiência compartilhada, capaz de aproximar pessoas que não dividem a mesma língua.
A diretora aponta o filme “Encontros e Desencontros” (2003), de Sofia Coppola, entre as referências que acompanharam o processo de construção do documentário. “Também aqui existem temas como o encontro, o desencontro, a comunicação e as suas falhas, o entendimento mútuo e a experiência de estar em uma terra estranha”, explica.
Em Hiroshima, uma frase cantada durante o filme amplia ainda mais essa reflexão: “E se hoje falássemos de amor? Só para variar…”. Para Ana Rocha de Sousa, o momento sintetiza uma das questões centrais de Neste Quarto: a possibilidade de criar espaços de empatia em um mundo hoje tão marcado pela violência, pela guerra, pela distância e pela intolerância. “Um filme em que o entendimento e o tempo para ‘o outro’ são poesia, e a poesia um gesto simples de amor como forma de revolução”, conclui a diretora.
Serviço – Horários de exibição de Neste Quarto
Dia 17/10 – 20h10 – Solar Sala Petrobras
Dia 18/10 – 18h – Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 3
Dia 22/10 – 14h – Cine Tutu
Dia 25/10 – 21h50 – Espaço Petrobras de Cinema Sala 1
