A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM



 

Três das maiores séries desta década (e das anteriores) ganham novas temporadas no Disney+

 

Por Chico Felitti

 

Em tempos turbulentos, tudo o que eu quero é ligar a televisão e encontrar lá velhos amigos em novas versões. E, para minha sorte, abri o Disney+ e me deparei com novas temporadas de American Horror Story, Os Simpsons e It’s Always Sunny in Philadelphia, séries que envelheceram sem perder um pingo de colágeno narrativo.

 

Vamos começar por American Horror Story, a mais escandalosa das velhas novidades. É como se alguém tivesse juntado todos os Vingadores que habitam nossos pesadelos em uma série só. American Horror Story chega à décima terceira temporada com uma colisão de todos os mundos que criou.


Jessica Lange ressurge como Constance Langdon, a primeira protagonista de American Horror Story. Mas Lange não para por aí: também encarna Elsa Mars, a dona do gabinete de horrores da temporada 4 da série, batizada de Freak Show. E ela não está só: Sarah Paulson, a musa maior da história de terror americana, interpreta SEIS (perdão pela caixa-alta) personagens nessa temporada.

 

A nova temporada de American Horror Story parece um sonho febril. Jeffrey Dahmer usa o Grindr, aplicativo gay de encontros. O palhaço bonzinho Twisty, de American Horror Story Freak Show, volta, mas vem com uma personalidade cheia de perfídia. Também retornam personagens de Cult, Roanote e Apocalypse, com uma ponta do… capeta? Isso porque Ryan Murphy decidiu misturar todas as histórias que já contou em uma só, e para isso ignorou distâncias temporais, geográficas e de plano existencial (afinal, muitos desses personagens morreram em suas temporadas, de maneiras bem explícitas).

 

Os seis primeiros episódios, que já estão disponíveis, começam a contar a história de Ben, um homem que acorda obcecado pelo número 13. Até que ele pega um avião que tem 13 no número do voo, num portão de embarque de número…13. E esse voo o leva para as profundezas da estranheza. O naco da série que já foi lançada criou na internet um efeito oposto ao de um ansiolítico. O público do TikTok está em polvorosa. “O roteiro é alucinante, eu sinto que tive um derrame”, escreveu uma americana cuja arroba é Shannahan_Elisa. Mas Murphy sempre esteve aqui para confundir e não para explicar. O criador da história de terror americana sabe que, em 2026, polêmica é sinônimo de relevância.

 

É difícil pensar num mundo sem Ryan Murphy. Se a cultura de massa dos últimos anos focou em crimes e no lado obscuro da existência humana, é ele um dos maiores responsáveis. Afinal, foi da mente de Murphy que veio a ideia de transformar párias e psicopatas em protagonistas. 

 

Não deve ser à toa que a nova temporada conta com a participação de John Waters. Waters é o diretor de Pink Flamingos, filme de 1972 em que a drag queen Divine chocou o mundo ao comer o que não deveria, e criou um clássico do desprezo ao bom gosto. O convite para o veterano, hoje com 80 anos, soa como um aceno do príncipe da escatologia ao rei do mau gosto. E a gente gosta. 

 

Tudo isso envolto no celofane de uma estética dramática. A nova temporada também revive a do começo da série.  É como se uma pintura renascentista ganhasse vida. E um tanto de morte. American Horror Story 13 terá 13 episódios de meia hora ou menos, e chega ao fim nas portas do Halloween, em 29 de outubro. 

 

Enquanto isso, dá para amainar a ansiedade com outras joias do catálogo do Disney+ que se encaixam na categoria Imortais, Graças a Deus. Eu comecei a reassistir It’s Always Sunny in Philadelphia, a série com o humor mais pesado do streaming atual. Faz 18 anos que essa cambada de amigos, que se tratam como as piores pústulas da Terra, destilam o tipo de humor que deveria ser proibido fora de uma mesa de boteco –mas felizmente não é . Piadas sujas, infectas e que fazem rir rangendo os dentes. É um milagre que essa série não tenha sido cancelada em um mundo onde cada palavra escrita num roteiro é medida com régua. Talvez, por não deixar nenhuma vítima viva, esses personagens escrotos sejam incanceláveis. Todo mundo nessa Filadélfia fictícia é horroroso, o tipo de pessoa que é melhor atravessar a rua quando passa do seu lado. São cobras mordendo outras cobras. 

 

E sempre podemos contar com Os Simpsons. São mais de 800 episódios da animação que mudou tudo, e chega à temporada 38 com pele de neném e a garantia contratual de pelo menos mais duas temporadas. Ou seja, Os Simpsons vão viver até os 40 anos, pelo menos. É a maior série de todos os tempos, e eu não estou falando só de longevidade. A ver se a mente deliciosamente doentia de Ryan Murphy consegue um dia ultrapassar a duração das histórias da mente deliciosamente vazia de Homer Simpson. 

 


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