​O que mudaria na humanidade se a consciência sobrevivesse ao corpo?



Em “E.O.N. – A Origem”, Roberto T. G. Rodrigues imagina uma sociedade transformada por uma grande enchente e por uma doutrina que separa corpo e consciência

E se a consciência humana não dependesse do corpo para existir?

A pergunta está no centro de “E.O.N. – A Origem”, romance de ficção científica de Roberto T. G. Rodrigues que combina uma sociedade devastada por uma grande catástrofe ambiental com uma ideia capaz de alterar a maneira como os sobreviventes enxergam a própria existência: a possibilidade de que corpo e consciência sejam elementos distintos.

A história começou a ser imaginada pelo autor por volta de 2006, a partir de um texto que permaneceu guardado por quase duas décadas. Ao retomar o projeto, Roberto percebeu que a ideia de uma grande enchente ganhava novas camadas diante das discussões contemporâneas sobre mudanças climáticas e vulnerabilidade das sociedades.

Mas “E.O.N. – A Origem” não é apenas uma história sobre o fim do mundo. O romance parte da destruição para perguntar o que acontece depois: como reconstruir uma sociedade quando aquilo que estruturava a vida deixa de existir? O que acontece com dinheiro, fronteiras, poder e hierarquias quando a sobrevivência passa a ser a única prioridade?

Quando o mundo conhecido deixa de existir

Na narrativa, uma grande inundação transforma completamente a vida humana. Estruturas sociais, relações de poder e referências que pareciam permanentes perdem importância diante da necessidade de reconstrução.

É nesse cenário que surge a E.O.N., sigla para Êxodo da Origem Natural, uma doutrina criada por pessoas que perderam praticamente tudo. A proposta parte de uma divisão entre Origem Natural, associada ao corpo, e Essência Consciente, relacionada àquilo que tradicionalmente seria compreendido como alma ou consciência.

A princípio, a ideia pode parecer uma crença improvável, próxima de uma seita. Conforme a narrativa avança, porém, o leitor é levado a considerar suas consequências e a questionar se a premissa é realmente tão absurda quanto parecia.

Eu queria que o leitor começasse desconfiando da ideia e, aos poucos, chegasse ao ponto de pensar: e se não for tão absurdo assim?”, explica Roberto T. G. Rodrigues.

Uma ficção sobre aquilo que permanece

O protagonista Marco é um sobrevivente da catástrofe. Ainda adolescente quando o mundo que conhecia desaparece, ele carrega por décadas as consequências daquela experiência.

Já aos 50 anos, depois de perder os pais e Anne, uma pessoa fundamental em sua trajetória, Marco passa a revisitar acontecimentos que marcaram sua vida e a questionar o que, afinal, permanece quando tudo aquilo que dava sentido à existência desaparece.

A partir dessa trajetória, o romance desloca a pergunta inicial. Não se trata apenas de descobrir como sobreviver, mas de tentar compreender o que significa ser humano quando as referências materiais, sociais e afetivas que sustentavam essa identidade deixam de existir.

A ideia de uma consciência independente do corpo é inteiramente ficcional e não parte de uma escola filosófica, científica ou espiritual específica. Roberto utiliza essa hipótese como ferramenta narrativa para explorar suas consequências.

Da catástrofe à reconstrução

A escolha da enchente como elemento central também tem uma função que vai além da destruição física. Para o autor, a catástrofe evidencia a fragilidade de estruturas consideradas permanentes e coloca em perspectiva valores que organizam a vida em sociedade.

Dinheiro, fronteiras e poder perdem o sentido quando a sobrevivência passa a ser a prioridade. Quando tudo isso deixa de importar, a questão passa a ser como reconstruir a vida e o que cada pessoa entende como importante”, afirma Rodrigues.

Nesse sentido, “E.O.N. – A Origem” usa a ficção científica para levar questões contemporâneas a um cenário extremo e perguntar o que poderia permanecer de uma sociedade depois que suas certezas fossem retiradas.

Um autor entre a fantasia e a ficção científica

Roberto T. G. Rodrigues é escritor de literatura fantástica e transita por diferentes possibilidades de construção de mundos ficcionais. Em setembro de 2026, lançou “E.O.N. – A Origem”, sua primeira incursão na ficção científica, enquanto prepara “Silas”, quarto volume da série de fantasia medieval “A Era de Ouro da Magia”.

Sua produção parte da criação de universos imaginários para explorar questões relacionadas à existência, às crenças, ao comportamento humano e à organização da sociedade.

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