Entre humor, filosofia e autoconhecimento, série seguida por milhares de psicólogos e psicanalistas transforma sentimentos e conflitos cotidianos em reflexões sobre a experiência de estar vivo

Uma das principais webcomics brasileiras da atualidade, Téo & O Mini Mundo está de volta às livrarias. Criada pelo quadrinista mineiro Caetano Cury, a série conquistou leitores nas redes sociais com tirinhas que transitam entre humor, afeto, autoconhecimento e as inquietações da experiência humana. Publicadas na internet desde 2012, as histórias deram origem a uma coleção de livros que chega agora ao quarto volume.
Em Téo & O Mini Mundo – Viver é um risco, lançamento da Editora Composição, o autor reúne quadrinhos produzidos entre 2022 e 2026 e apresenta uma fase mais madura e intensa de seu trabalho. Amor, medo, luto, finitude, esperança e as contradições de estar vivo atravessam as páginas do novo livro, que tem prefácio da jornalista e apresentadora Aline Midlej, uma das seguidoras de Téo nas redes.
“O nome do livro vem de uma tirinha”, explica Caetano Cury. “Nela, um personagem desenha uma linha no chão e diz que aquela é uma obra de arte chamada Viver é um risco. Então uma pessoa passa caminhando, tropeça na linha e cai. O desenho se transforma em uma espécie de corda. Você pode tropeçar a qualquer momento. Viver é um risco. Mas o título também capta o espírito de um período que vivi, no qual enfrentei algumas questões que me fizeram refletir sobre a finitude e sobre o quanto nossa vida é frágil”.
Desenhadas à mão e coloridas com aquarela, as tirinhas de Téo & O Mini Mundo começaram a ganhar visibilidade em 2013, quando uma delas foi utilizada em uma questão do Enem. Publicada inicialmente no Facebook, a série chegou ao Instagram em 2016, plataforma que se tornou seu principal canal de contato com os leitores. No entanto, o grande salto de público aconteceu durante as eleições de 2018. Sem falar diretamente sobre política, Cury passou a transformar em quadrinhos sentimentos presentes naquele período, como ansiedade, medo e preocupação com o futuro. As histórias permitiam diferentes interpretações, mas os leitores reconheciam nelas as inquietações daquele momento. A identificação fez a audiência da página no Instagram crescer rapidamente e ajudou a consolidar a série como uma das principais webcomics do país.
A repercussão nas redes abriu caminho para a chegada de Téo às livrarias. Em 2019, Cury lançou Téo & O Mini Mundo Vol. 1, O Livro, que reúne sete anos de produção e experimentações do personagem. No ano seguinte veio O Lugar do Outro, segundo volume da coleção, seguido por Quentinho no Coração, em 2022. Produzidos em um período atravessado pela pandemia, os dois últimos incorporaram questões daquele momento, como medo, responsabilidade e a necessidade de se colocar no lugar do outro. Já Viver é um risco se distancia de um contexto histórico específico para tratar de questões mais universais da experiência humana.
“O que muda neste quarto volume é a intensidade. Eu considero esta edição a mais intensa da coleção. É um livro mais visceral e mais impactante. Há tirinhas que fazem a pessoa perder o fôlego. Digo isso com base nos comentários das pessoas nas redes sociais. De certa forma, esse livro já foi testado nas redes. Muitas tirinhas viralizaram e provocaram espanto, impacto, mas, ao mesmo tempo, também aqueceram muitos corações”, reflete o autor.
Antes de se dedicar exclusivamente aos quadrinhos, Caetano Cury trabalhou por quase 20 anos no rádio, onde atuou como apresentador, repórter e diretor de emissora. Filho de uma artista plástica, sempre manteve uma relação próxima com o desenho e, durante anos, conciliou as duas atividades. O sucesso do primeiro livro de Téo & O Mini Mundo deu ao autor segurança para deixar o rádio e viver de sua produção artística. A aquarela, uma das marcas visuais da série, acompanha essa trajetória. “O que mais me agrada na aquarela é a fluidez. Você não pinta sozinho. Pinta junto com a natureza, com a gravidade, com a física. Alguns resultados são surpreendentes. Surgem manchas inesperadas, um degradê que não estava planejado e acaba ficando lindo”, conta.
Mesmo depois de chegar aos livros, Téo & O Mini Mundo mantém nas redes sociais uma parte essencial de sua identidade. É ali que Cury estabelece uma relação direta com os leitores e acompanha a repercussão das histórias, que também influencia a seleção das tirinhas que chegam às edições impressas.
Entre os seguidores da série estão muitos profissionais da saúde mental, como psicólogos e psicanalistas, todos atraídos por quadrinhos que abordam o autoconhecimento e os conflitos da vida cotidiana. Sem assumir uma posição terapêutica ou oferecer respostas prontas, as tirinhas encontram nesse público uma identificação particular ao transformar sentimentos e inquietações da experiência humana em narrativas breves e acessíveis.
“Muita gente diz que os livros ajudaram, e fico muito feliz com isso. Mas, às vezes, essa ajuda acontece justamente porque uma tirinha destruiu alguma coisa que a pessoa pensava, e isso também pode ser bom. Espero que este livro destrua algumas coisas. Espero que as pessoas se sintam bem lendo, mas que também se sintam mal em alguns momentos, porque o desconforto também pode ser um ponto de partida para a mudança. Nem toda reflexão precisa acolher. Algumas precisam incomodar, provocar, colocar em dúvida aquilo que parecia certo. Acho que a arte também serve para isso: não apenas para dizer aquilo que a gente gostaria de ouvir, mas para remexer com o interior da gente”, finaliza Caetano Cury.
