Da troca de aparelho ao custo da transição, o presidente da SET explica o que já está definido e o que ainda precisa avançar
São Paulo, março de 2026 — A TV 3.0, também chamada de DTV+, promete inaugurar a maior transformação da televisão aberta brasileira desde a digitalização do sinal. A proposta inclui transmissão gratuita em 4K, áudio imersivo, múltiplas câmeras, interatividade e integração com a internet, aproximando a radiodifusão da lógica das plataformas digitais, sem perder a gratuidade e o alcance massivo.
Mas a mudança levanta dúvidas no público e no mercado: será preciso trocar de TV? Os conversores já estão disponíveis? Quem paga a conta da transição? E quando a nova tecnologia estará plenamente acessível?
A SET entende que a mudança é estratégica para o setor e acompanha de perto os avanços regulatórios, tecnológicos e de mercado para garantir uma implementação sólida. Para Paulo Henrique Castro, presidente da SET, o avanço exige coordenação entre governo, indústria e radiodifusores. “É uma evolução natural da radiodifusão, mas precisa acontecer com previsibilidade e segurança regulatória para que o investimento seja sustentável”, afirma.
A seguir, ele esclarece os cinco pontos centrais para entender o que está em jogo.
1) O que ainda precisa ser resolvido antes da implementação?
A implementação depende de três frentes principais: regulação, financiamento e indústria. No campo regulatório, a Anatel já avançou com documentos essenciais, como o plano de frequências da nova faixa de 300 MHz e os requisitos técnicos de transmissão. No Ministério das Comunicações, estão em elaboração complementos da política pública relacionados à consignação de canais.
“O setor está avançando bem, mas ainda há definições importantes. É fundamental garantir segurança regulatória e condições para que as emissoras possam investir com previsibilidade”, diz Castro.
Outro ponto considerado decisivo é a criação de linhas de crédito que viabilizem investimentos mais robustos, acelerando a expansão para mais cidades e ampliando a oferta de canais no novo padrão.
2) Será preciso trocar de TV?
Sim, as TVs atuais não são compatíveis com o padrão da TV 3.0. No entanto, isso não significa que o consumidor precise substituir o aparelho imediatamente.
Segundo o presidente da SET, será possível utilizar um conversor externo conectado via HDMI. “É semelhante ao que aconteceu na transição da TV analógica para a digital. No primeiro momento, o conversor permitirá usar a TV atual como display 4K”, explica.
A orientação é acompanhar o lançamento dos conversores e, posteriormente, dos primeiros modelos com receptor integrado, que devem chegar ao mercado após o início das transmissões comerciais.
3) Os conversores já estão disponíveis?
Ainda não. Existem apenas protótipos e poucas milhares de unidades destinadas a testes em estações-piloto, como as operadas pela EAD, Seja Digital e pela Globo.
“É uma tecnologia muito nova. Chips e componentes só ficaram disponíveis recentemente. No início, os equipamentos tendem a ser mais caros, criando uma barreira financeira”, afirma Castro.
Por isso, ele defende a distribuição de kits para famílias de baixa renda como estratégia de inclusão e também como mecanismo de estímulo à indústria, gerando escala produtiva e reduzindo custos ao longo do tempo.
4) Como a TV 3.0 funciona na prática?
O novo sistema combina transmissão pelo ar com conexão à internet. O conversor utiliza tecnologia MIMO (múltiplas entradas e múltiplas saídas), permitindo que dois sinais sejam transmitidos pela mesma torre e combinados no receptor. Além disso, conta com processadores e chips de última geração, capazes de suportar compressão avançada de áudio e vídeo e habilitar interatividade.
“Quem não conectar à internet continuará assistindo normalmente, mas com menos funcionalidades. A experiência completa depende da conexão tanto à antena quanto à internet”, orienta Castro.
Na prática, isso significa transmissão gratuita em 4K, áudio imersivo, múltiplas opções de câmera, conteúdos sob demanda e personalização da experiência. A televisão passa a operar integrada ao ecossistema digital, mantendo seu alcance aberto.
5) Por que a implementação pode levar anos?
O principal fator é o investimento. “As emissoras e os consumidores vão investir de forma gradual. A tendência é começar pelos grandes centros, onde há maior mercado. Com o aumento da adoção, a escala reduz custos e o padrão se consolida”, afirma o presidente da SET.
Ele compara o processo a outras transições tecnológicas, como a evolução do 3G para o 4G e o 5G: no início, equipamentos mais caros e base reduzida; depois, massificação e integração nativa aos aparelhos.
Além da infraestrutura, Castro chama atenção para o desafio criativo. “A transmissão gratuita em 4K já é um avanço relevante, especialmente em grandes eventos. Mas o setor precisa desenvolver produtos que explorem plenamente a integração da TV aberta com o ecossistema digital.”
Para ele, a TV 3.0 não substitui a televisão tradicional, ela a expande e a reposiciona no ambiente digital, sem abrir mão da gratuidade e do alcance que caracterizam a radiodifusão brasileira.
